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Mais informações no site do autor:
http://www.josesaramago.org/
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Leia abaixo dois comentários que fiz, em março desse ano, sobre dois livros do Saramago
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A Caverna
25/03/10
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Acabo de finalizar a leitura de mais um livro do Saramago, “A Caverna”. E estou no livro até agora, pasmo, com medo de mim mesmo e cheio de inquietações. Logo eu fui ter acesso a esse livro? Uma eterna criança com medo das contradições,
Dane-se. Não é eu quem sempre falo que devemos ler livros que estragam a gente?
Então, A Caverna é um desses livros. Nele Saramago recria o “Mito da Caverna” de Platão, através da vida de uma família de oleiros que somente depois de ter os produtos totalmente rejeitados é que se libertam de uma caverna onde estão sentados num banco de pedra olhando sombras na parede, projetadas por uma fogueira atrás deles e que eles pensam ser somente isso o mundo.
O momento da leitura em que comecei a ficar mal foi quando Cipriano Algor, um dos protagonistas, encontra numa caverna embaixo de um shopping Center, seis corpos humanos acorrentados em bancos de pedra. Aí ele mesmo senta e começa a chorar. Não há nada mais triste, mais miseravelmente triste do que um velho a chorar, ainda mais numa situação como esta, onde depois de mais de 60 anos ele descobre que foi enganado, sendo obrigado desde o berço a pensar assim, trabalhar assim, consumir assim e achar assim.
Acho que nunca sairei desse livro, e se sair não será ileso, pois estou desde ontem a procurar um lugar nesse mundo que não é uma caverna, inclusive creio que a maior delas está em nossa cabeça.
Agora vou iniciar a leitura de “As intermitências da Morte” também de José Saramago, pois na terça que vem tenho um debate sobre ele.
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As Intermitências da Morte
30/03/10
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Assim como a morte suspende suas atividades e para de matar, Saramago suspende seu comunismo e resolve falar de amor em “As Intermitências da Morte”.
Depois de ter lido, quase numa sequência, quatro livros do autor, me vi chateado ao terminar a leitura dessa obra. Creio que, embalado pela leitura de outros livros, me vi empolgado e dei com a cara na parede.
A ideia foi boa, mas parece que Saramago foi derrubado por ela ao não desenvolver de forma gostosa, onde a leitura fluiria sem problemas, igual nosso dia-a-dia, sabendo que não somos eternos e que algum dia iremos morrer.
No começo a leitura é boa, mas antes de chegar na metade, fica cansativa demais, e as belas citações filosóficas que Saramago tem como marca, aqui se tornam um saco.
O enredo é chamativo: A morte resolve suspender suas atividades e a partir do dia 1º de janeiro ninguém morre no país. Como conseqüência, aparecem centenas de problemas, entre eles econômicos e sociais.
De início as pessoas acham aquilo uma benção; Que beleza! A eternidade. Ser imortal.
Porém, os pontos negativos são superiores aos positivos. É aí que a morte consegue atingir seu objetivo: o de mostrar aos ingratos seres humanos que ela não é tão ruim quanto parece, e que sem ela, estaríamos num caos permanente. É só imaginar que você vai completar 200 anos, todo enrugado, cheio de dores, sem enxergar, envergado, sem se mover, só o osso, sendo rejeitado por parentes e até pelo asilo, e que mesmo o seu coração quase parando, você não morre.
Pode ter certeza, a coisa que você mais vai querer é a morte.
Depois que as pessoas entendem o recado, a morte volta a matar, só que com um diferencial: dessa vez as pessoas serão avisadas uma semana antes de sua morte, por uma carta cor de violeta. Novo caos.
É isso o que o livro trata. Para mim, além de me levar ao debate com alguns escritores da Associação Cultural Literatura no Brasil, ainda serviu para algo mais importante: perdi o medo da morte.
Mas, por favor, que eu não morra agora, tenho muito o que fazer e já entendi que a morte, para o bom andamento do mundo, é muito importante. Por isso, dona morte (no livro ela gosta de seu nome no minúsculo), me poupe por agora. Sei que você é necessária.
Neste livro Saramago continua com seu ateísmo veemente e com suas ironias religiosas, mas o que me surpreendeu de fato foi que ele deixou de lado seu comunismo para dar espaço ao amor. Sabem o que acontece no final?
Simplesmente a humanização da personagem principal.
Um pouco mais da metade do livro até o final, parece que o autor fecha as cortinas e só circula no palco dois personagens: a morte e um músico que parece se recusar em morrer. A gélida e irreversível morte, para conseguir matar esse músico, se transforma em mulher, se apaixona, faz amor com ele e vira um ser humano.
No dia seguinte ninguém morre.