MENINA ÁGATHA
Sacolinha
Advertência: esta história é um conto e como tal é fictício e foi construído livremente baseado em fatos do cotidiano. Dessa forma, o autor não busca aqui imitar a realidade ou ser fiel a ela.
Manchete
Ágatha, 8, a mais nova vítima da violência
armada que já atingiu 16 crianças no Rio neste ano
Menina morreu na noite de sexta, com um tiro nas costas, quando estava dentro de uma kombi no Complexo do Alemão, zona norte da cidade
Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019/09/21/politica/1569099826_106579.html
Acessado em 22.09.2019
– Rosinha, o vovô vai carregar uns passageiros. Quer vir junto?
Já era legal estar com o avô, passeando de kombi então, era o melhor momento do dia. Quantas vezes não rangera os dentes nas noites que antecediam os rolês com o vovô? Quantos pulos não dera naquelas horas em que o pai da sua mãe chegava com esses convites?
– O vovô é o meu rei! – Dizia para a mamãe.
Entrou na kombi enquanto o avô conferia o óleo do motor. A felicidade da neta era tanta que o veículo não parava de balançar, tamanha era a movimentação da garota ali dentro. O avô entrou e pediu pra ela colocar o cinto. Disse ainda que iam até o supermercado lá da pista para pegar uns clientes. Depois passariam próximo ao terminal de ônibus para pegar mais um passageiro e só aí voltariam para o morro.
– Só isso, vô?
O avô riu gostosamente:
– Mas você é uma neta sem vergonha mermo, né?
Ligou a kombi e saiu. Pela janela quadrada do veículo, os olhos de Rosinha viam o seu mundo passar: a escola, o espaço cultural onde fazia balé, o centro comunitário onde aprendia inglês e o parque onde ia com toda a família aos finais de semana. Cada um desses lugares, ela pegava e colocava no bolso, como a guardar, num passe de mágica, tudo aquilo de que ela gostava.
Já no asfalto, a kombi dividia a pista com dezenas de carros. Caminhões passavam em alta velocidade, fazendo a kombi balançar. Rosinha achava legal. Já os ônibus eram mais devagar. Ela apostava corrida com eles. E quando um ficava pra trás, Rosinha logo falava:
– Vishi, vô, aquele ônibus num aguentou.
Os motoristas de carros, apressados, pediam passagem com suas buzinas. Eles nem imaginavam que aquela kombi andava devagar porque ia carregada de alegria.
Pegaram os primeiros passageiros no supermercado. A garota ia calada, pois era tímida com as outras pessoas, mesmo essas pessoas elogiando-a:
– Rosinha está cada dia mais bonita!
– Ô menina inteligente essa sua neta, hein Seu Olavo!
O avô ficava exibido feito pavão. Adorava os passeios com a menina por conta disso também. Não havia um que não a exaltasse. E ele ainda botava lenha na fogueira:
– Começou a fazer balé. E na semana passada foi super elogiada pela professora. E tu pode falar qualquer palavra que ela soletra direitinho.
Rosinha corava diante das exibições do avô, mas gostava.
A kombi pegou o último passageiro perto do terminal e seguiu viagem. Avô e passageiros deixaram Rosinha em paz e conversaram animados sobre o que cada um faria no final de semana. A neta olhou pela janela e pensou no seu fim de semana: “Sábado de manhã, vou na casa da Mariana pra fazer o trabalho da escola. De noite, a mamãe falou que a gente vai comer pizza. E no domingo, se a gente não for para o parque, eu vou chamar as minhas amigas pra gente brincar de queimada”.
O veículo começou a subir o Morro do Alemão. Uma viatura da polícia pacificadora passou em alta velocidade. Cena normal pra quem vive nos morros do Rio de Janeiro. Os adultos continuaram a conversa, enquanto Rosinha, com as suas mãos pequenas, pegou aquela viatura e a fez alçar vôo para longe dali: “A minha mamãe comentou que eles não são bons pra gente negra igual a gente. E é verdade, mamãe, eles mataram o Pedrinho quando ele voltava da escola”.
A kombi parou para deixar os dois primeiros passageiros. Atrás de si o avô abriu o porta-malas. Rosinha viu quando a moto apareceu na rua e achou perigoso o motociclista sem camisa e sem capacete. E da mesma maneira que pegou a viatura, utilizou dos seus super poderes para vestir o motorista da moto. A viatura policial surgiu novamente, perseguindo o motociclista. Quando a garota encaixava o capacete na cabeça do rapaz, sentiu arder as suas costas. Depois uma dor. Passou suas mão mágicas no ponto da dor e se assustou com todo aquele sangue. Chamou pelo avô.
No caminho do hospital, antes de desfalecer, ainda conseguiu pedir para o avô avisar ao moço da moto para tomar cuidado porque ela não tinha conseguido colocar nele o capacete.