Texto inédito
Eu só queria empinar pipa O leitor não imagina a minha situação e nem em que circunstâncias eu estou narrando este texto. Mas vou contar. Havia entrado de férias do serviço. Estava sem grana, ou melhor, até possuía dinheiro para uma boa viagem, mas tinha acabado de comprar um terreno junto com minha noiva, e tinha de economizar para a construção que começaríamos dali há dois meses. Então resolvi curtir meus trinta dias de uma forma diferente. Tinha minha bicicleta, era só limpá-la, passar um óleo na corrente e nos rolamentos das rodas, encher os pneus e sair por aí. Porém, havia um primo meu, de três anos de idade que adorava ficar comigo. E eu gostava pra cacete do moleque. Foi identificação mútua. Nos finais de semana eu pegava-o e saía de role. Íamos na doceria, chupávamos sorvete, jogávamos vídeo-game e tudo mais. Era um pedaço de gente que sempre alegrava-me com sua inteligência. Não me chamava pelo nome, mas sim pelo grau parentesco. Não saía o “R”, então era assim: – Ô Pimo. Que criança fantástica. Bom, o fato é que percebi que ele adorava pipas. Vivia olhando para o céu e, quando via um avião ou pássaro, gritava: – Ó a pipa, ó a pipa. Uma vez passamos num campinho onde alguns meninos empinavam seus papagaios. Pedi para um deles deixar o meu primo pequeno segurar um pouco a linha que mantinha a pipa no ar. Quando o Gabriel segurou na linha, senti que aquele foi o momento mais feliz da vida dele. Seus olhos brilharam, e ele nem conseguiu sorrir de tanta fascinação. Sem dúvida, ele sentiu o que toda criança sente num momento como esse; a pipa no ar balançando de um lado á outro, o vento soprando, a liberdade presa numa linha corrente, o