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O FINAL VOCÊ JÁ SABE

PARAISÓPOLIS

Sacolinha

 

Advertência: esta história é um conto e como tal é fictício e foi construído livremente baseado em fatos do cotidiano. Dessa forma, o autor não busca aqui imitar a realidade ou ser fiel a ela.

 

Manchete

Estudantes, trabalhadores e sonhadores. Quem eram os

jovens que morreram após ação da PM em baile funk

Amigos e familiares contam como eram as nove vítimas

que foram pisoteadas em Paraisópolis

 

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2019-12-03/estudantes-trabalhadores-e-sonhadores-quem-eram-os-jovens-que-morreram-apos-acao-da-pm-em-baile-funk.html

Acessado em 06.12.2019

 

1

Adriano morava em Mogi das Cruzes e acabara de completar 22 anos. Estava chateado com os pais porque eles não o deixavam tirar a carteira de motorista. Havia quatro anos que ele nutria o sonho de conduzir um carro. Ultimamente queria ser motorista de aplicativo. “Já pensou, mano, além de movimentar um carro, ainda poder prestar serviços levando o povo pra lá e pra cá? Quem sabe até virar motorista de bacana, hein?” – Disse a um amigo no trem, enquanto seguiam para Paraisópolis.

Aquela ida ao baile funk era um ato de rebeldia. Os pais pegavam muito no seu pé. E para que ele pudesse ser mais livre, cobravam amadurecimento. “Ah, mano, se os coroas quer maturidade, eles vão ter. Saí de casa e pedi pra fechar bem a porta, que eu só volto amanhã”.

Adriano nunca tinha ido a um baile funk. E pensava que esse seria o primeiro de muitos.

Já de cara, gostou do que viu, principalmente da quantidade de mulheres presentes. Em algumas rodas, elas rebolavam Quadradinho de 8 e Dança do Crew.

Carro não tinha ali, mas moto era mato. Apesar de curtir só veículo quatro rodas, se amarrou em muitas motocicletas. Elas eram potentes e muito rápidas, tão rápidas quanto o início da correria no baile.

Antes de fechar os olhos pela última vez, se lembrou das miniaturas de carros que colecionava em casa.

 

2

A avó de Juliana até pensou em pedir para a neta ficar em casa, mas era um mês triste na vida da “Bichinha”, apelido que ela deu para Juliana. A jovem de 18 anos perdeu os pais há alguns anos, nesta mesma época. E sempre que chegava este mês, Juliana procurava manter-se ocupada o tempo todo, pois a dor e a saudade dos pais eram imensas, iguais ao céu onde, certamente, eles moravam. Ela sabia que esses sentimentos só iriam cessar quando ela fosse pra junto deles. Enquanto isso, procurava viver da melhor maneira. Adorava ficar com os amigos nas tabacarias e baladas, desde que o som que saísse das caixas fosse o bom e velho funk. Não podia ouvir nada do gênero que seu corpo já lhe entregava: fazia biquinho com os lábios, colocava o braço direito para o alto e balançava o corpo. Dizia para os amigos que queria ser dançarina ou produtora de funk.

Depois de 26 km, duas horas no trânsito e R$ 17,20 de condução, ela chegou até o destino.

Na madrugada, apesar do corre-corre, não arredou o pé. Pensava que era só uma confusão que cessaria logo. Não iria correr pra não perder o melhor lugar da balada.

Após a pancada, a queda e as dores, veio a imagem dos seus pais estendendo as mãos: “Vem filha, já acabou!”

 

3

Thiago ainda estudava no ensino fundamental e tinha apenas 14 anos. Na escola, seus amigos o chamavam de “Sorriso” por conta das piadas que contava e das quais ele mesmo ria. Só não ria quando se lembrava do pai, falecido. Nessas horas batia um vazio, uma sensação de que tava faltando algo.

Chamou a sala inteira pra ir ao baile “Vamo bóra, galera! Tá todo mundo com medinho da mamãe? Tão parecendo tudo filhinho de papai.”

Um pouco sem jeito chegou até a sua paquera da classe: “Eae Samantha, vai deixar eu ir sozinho pra Paraisópolis? E se as minas de lá chegar em mim, como é que vai ser?” – E riu largamente.

Saiu escondido de casa.

No chão, em meio ao tumulto, Thiago é levantado e recebe um abraço aconchegante. Quando consegue ver quem lhe abraça, pergunta, entre surpreso e feliz: “Pai?”

 

4

Michael Silva, de 21 anos, saiu da oficina mecânica direto pra floricultura. A atendente ficou com nojo quando recebeu o dinheiro das mãos sujas de graxa. Ele, percebendo a cara dela, deu uma alfinetada: “Antes as mãos sujas do que o dinheiro. Aqui é trabalhador, dona”. Pegou a rosa e saiu. Estava muito feliz naquele sábado. Além de ser dia de baile funk, seu pai, o proprietário da mecânica, havia adiantado o salário. Passou na bomboniere e comprou uns doces para o seu pivete de dois anos e uma caixa de bombom para a mãe. Era sempre assim: em dia de balada comprava uns agrados para o filho e para a mãe, como a compensar a madrugada que ficaria fora. A rosa era para a irmã, que estava aniversariando. Ela ficou bem feliz com aquela flor e com a declaração de amor do irmão.

Depois do banho, Michael jantou e se despediu do pivete com um beijo, prometendo não demorar. A mãe, já sabendo que o filho costumava chegar só de manhã, foi irônica: “Não vai demorar, é? Sei!”

Michael brincou: “Ao menos para o almoço, eu chego” – E saiu cantando, todo feliz e perfumado:

“Todo mundo devia nessa história se ligar
Porque tem muito amigo que vai pro baile dançar
Esquecer os atritos
Deixar a briga pra lá
E entender o sentido quando o DJ detonar”

Depois de muitos golpes na cabeça e na barriga, Michael implorou: “Por favor, seu policial, eu prometi pra minha mãe e pro meu filho que chegava pra almoçar”.

 

5

Passava do meio-dia de sábado, quando Daniel saiu de casa pra trabalhar. Tinha 16 anos, mas já trabalhava de ajudante em uma tapeçaria. A mãe estava brava por ele não a ter acompanhado na igreja na noite anterior. Ele pediu desculpas e disse que não queria mais fingir, afinal não gostava de ir pra igreja, e só ia para agradá-la. A mãe virou a cara. Não queria dar o braço a torcer. “Também, só de raiva, vou ficar uns três dias sem falar com ele. E não vai ter aquele espaguete que ele tanto gosta” – Disse a mãe para uma irmã da igreja.

Daniel, sabendo que a mãe era birrenta, nem quis avisar que do trabalho iria sair com os amigos.

Chegou ao baile funk e foi direto para uma barraca de lanche. Empreendedor e curioso que era, começou a fazer várias perguntas para o barraqueiro enquanto o seu cachorro quente era preparado: “Ei tio, quanto custa uma barraca dessa?” “Você comprou em alguma loja ou mandou fazer?” “Cê usa algum carro pra trazer ou traz no braço?” Dá hora esse rolê, né tio? O funk gera renda e sustenta muitas famílias.”

Em seus últimos minutos, Daniel vomitou tudo o que tinha no estômago. O cachorro quente nem havia sido digerido.

 

6

Elias não tinha mais argumentos para dizer “não” aos amigos. Também estava cansado de ficar em casa aos finais de semana sem nada pra fazer. Tentou uma última negativa: “Mas nem de funk eu gosto, carai.” Os amigos disseram que o funk era só um pretexto para o encontro da galera. “Lá tem uma pá de gente dá hora, Elias, inclusive as minas. Tem muié pá porra, véi”. Então acabou dizendo que ia. Quem sabe não achava o amor da sua vida por lá?

Tinha 20 anos. Queria casar, ter filhos e um cachorro, uma casa e um carro. Emprego bom já tinha, só faltava se efetivar, algo que a empresa de energia em que estagiava, já havia prometido para o próximo mês. Então, era só achar a tampa da sua panela e andar no caminho que tudo se concretizava.

 Saíram de Mogi das Cruzes de trem. Elias era zoado pelos amigos só porque estava todo “na estica” e cheiroso, gel no cabelo e tudo mais. “Ué, tô indo mexer cimento, por acaso? Então tenho mais é que tá cheiroso, mesmo”. – Se defendia da zoeira.

Na chegada em Paraisópois ficou vislumbrado com a arquitetura do lugar. Tanta casa em tão pouco espaço. Várias vielas, vários sobradinhos e puxadinhos. Pensou que seria legal ser medidor de relógio de luz por ali. Trabalho não ia faltar.

… 

Passou o fim da noite e começo da madrugada com os amigos, até que se agarrou com uma jovem e ficou de canto, nos beijos.

Estava tudo tão intenso que o casal trocou até juras de amor. De repente, Elias acordou sem entender aquela correria. A cabeça doía muito. Alguém lhe segurou pelo pescoço e foi apertando. Elias achou que tinha se envolvido com a mulher dos outros. Mas estava confuso e já nem sabia se tinha mesmo beijado alguém ou se estava apenas sonhando.

 

7

Gostava de escrever mensagens positivas. Enquanto os moleques da sua sala adoravam desenhar pintos nas cadeiras, Felipe pegava o giz e escrevia na lousa a sua frase favorita “Vou ser um dos favelados que vai conquistar o mundo. vou ser pra minha mãe o motivo de tanto orgulho.”

Com 16 anos já era mais responsável que muito adulto. Estudava, trabalhava e ainda ajudava a irmã cuidando do sobrinho de 4 anos. O baile era o seu momento de prazer. Gostava da movimentação, dos amigos juntos, dos moleques da sua idade indo e vindo. Só não curtia os baratos que deixavam a galera extremamente feliz e alterada. Desde uma cerveja até aquele pó branco que uns caras sempre ofereciam pra ele. “Tô de boa, mano. Valeu.” – Dizia pra se livrar do vendendor.

Infelizmente não conseguiu se livrar do cara de farda que o cercou num canto da favela.

Enquanto recebia os golpes, se perguntava: “Mas esse cara é polícia. Polícia não tinha que me proteger?”  

 

8

Seu time do coração havia acabado de conquistar os títulos da Copa Libertadores e do Campeonato Brasileiro. Estava muito feliz. A situação só não estava perfeita porque os produtos de limpeza que vendia não estavam sendo o suficiente para os remédios da mãe e o enxoval da irmã, grávida de quase nove meses. “Mas a vida é dessas, nunca tá 100%. Eu vou aproveitar que o Flamengo é campeão e colar naquele baile monstro com a rapa.”

Baiano de nascimento e paulista de moradia, Luciano tinha 23 anos, 15 deles morando em São Paulo. Nunca soube explicar o fanatismo pelo time, mas sabia curtir as vitórias. Separou um trocado para tomar umas cervejas. Apesar da situação financeira, ele merecia. Trabalhava muito e só ia pra casa pra dormir, então precisava ter algum prazer de vez em quando.

Prazer que ninguém ali no baile entendia, só achavam que ele havia bebido demais: com um copão na mão, balançava o corpo desordenadamente, gritava para os amigos frases do tipo: “É campeão da libertadores, caraio!”, “Viva o Funk, porra!”,  “A favela é zika, mano!”

Gritou também quando recebeu um chute nas costelas, mas foi um grito de dor, seguido de vários outros gritos. Até que não pode mais gritar.

 

9

Mais do que o Baile da DZ7, o que atraía Fernando para Paraisópolis naquele dia era uma pesquisa que ele havia feito visando o vestibular. Estava com 16 anos e já se preparava para a prova que o levaria para a faculdade. Ainda não sabia direito o curso: “Médico, advogado, se pá até engenheiro. O importante é tá preparado, né não vó?” – Comentou certo dia com a avó que o criava desde a separação dos pais. Estudava no ensino médio de manhã e a tarde fazia um curso técnico.

A professora de geografia pediu um trabalho sobre favelas de São Paulo. Fernando até arrancou uma gargalhada da sala quando a professora perguntou qual favela ele ia pesquisar: “Ainda estou em dúvida entre as duas ‘Ópolis’, professora”. A educadora fez cara de quem não entendeu: “Heliópolis ou Paraisópolis, professora”. Foi uma risada geral. Depois um amigo chegou em Fernando e falou que em Paraisópolis tinha uma balada dá hora e muito famosa, que se ele escolhesse essa favela, o amigo o levava para dar um rolê lá e já aproveitavam pra curtir o baile. Fernando adorou a ideia, apesar de nunca ter ido a um desses bailes. Aproveitou o trabalho e já estendeu o interesse para o vestibular. Nas várias fotos que viu ficou impressionado com a arquitetura do lugar. Acabou incluindo em sua lista mais um curso. “Arquitetura até que não seria uma má ideia. Taí uma profissão de respeito. Vixe, pode pá, então! Já tô até vendo uma sala de trabalho com uma plaquinha na porta: Fernando Paulo – Arquiteto”. Sorriu.

Não conseguiu entender a divisão ao meio daquele imenso terreno: de um lado a favela, do outro, os condomínios com uma piscina em cada andar. E durante as pesquisas, descobriu que aqueles condomínios foram construídos, em sua maioria, pelos próprios moradores da favela.

Outra coisa que chamou a sua atenção foi o nome “Paraisópolis”. Não encontrou nada sobre a origem.

Falou para a avó que ia comer pizza pela redondeza. Depois da pizza desafiou um primo e os amigos para um rolê no Baile da DZ7.

Desafio aceito, chegaram por lá no começo da madrugada. Fernando não sabia explicar, mas foi invadido por uma felicidade nunca antes vivida. Ali era diferente do seu bairro. Havia vida pulsando, coletividade… Parecia que ninguém tinha problemas. Tipo um paraíso. E de repente, veio um estalo em sua cabeça: “Putz, é por isso que se chama Paraisópolis.” E tratou de curtir o máximo que pode aquele paraíso, objeto de sua pesquisa. “Afinal de contas estudar nem é tão ruim assim. Óia eu aqui, me divertindo e estudando.”

Só não foi divertido quando começou uma correria e seu primo lhe puxou pela mão. Em questão de minutos o paraíso virou um inferno: fumaça, barulho de tiros, gritaria, choro, ardência nos olhos e uma pancada na cabeça. Quando ia caindo ao chão procurou as mãos do primo como um afogado procura as mãos do salva-vidas.

 

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